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Centro Acadêmico Livre de Jornalismo Adelmo Genro Filho

Resgate histórico do centro acadêmico PDF Imprimir E-mail
Escrito por CALJ - Centro Acadêmico Livre de Jornalismo   
Qua, 27 de Setembro de 2017 16:36

 

 

Nossa realidade hoje dentro do departamento de jornalismo da UFSC é fruto de um longo trabalho coletivo feito por estudantes, professores, coordenadores e servidores. Conversamos com alunas e alunos que já passaram pelo nosso curso afim de reconstruir essa história do ponto de vista estudantil para compreender melhor qual foi o papel desempenhado pelo CALJ durante seus 37 anos de existência e sua importância na construção do nosso presente.

O Centro Acadêmico do curso de Jornalismo foi inaugurado em 25 de maio de 1980. Sergio Murillo Andrade foi um dos membros fundadores e, segundo ele, a necessidade de representação estudantil tinha muito a ver com o cenário político da época. "Era um momento bastante ativo politicamente, de reconstrução do movimento estudantil e de entidades no geral em todo o Brasil por causa do fim da ditadura. Nosso curso era novo, tinha muitas deficiências e havia essa necessidade de um espaço de discussão política. Participamos das primeiras greves pós-ditadura, fora as pautas políticas de âmbito nacional", conta. Naquela época o espaço físico se resumia a duas salas de aula anexas ao prédio da gráfica e havia também falta de professores e equipamento. Para Sérgio, o Centro Acadêmico contribuiu para a consolidação do curso. "Uma conquista importante por exemplo foi o conselho paritário, onde uma representação estudantil tinha o mesmo peso que um professor. A herança foi essa: criamos um espaço de convivência, de participação igualitária e de luta pela democracia. Hoje isso é comum e parece normal, mas na época ainda não era", afirma.

O primeiro currículo pós-ditadura foi feito pelos professores do departamento em 1985. Antes, toda a estrutura curricular era imutável e imposta pelo MEC. O professor Samuel Lima ("Samuca") é ex-aluno do JorUFSC, participava do CALJ nesse período e conta que as demandas não eram muito diferentes daquelas já citadas: "tínhamos problemas com espaço físico, estrutura...Como não havia estúdio de tele nós precisávamos ir até a TV Cultura para ter aula. Só que lá não se podia tocar em nada, então ficava meio difícil aprender os conteúdos".

 

Ocupa ou não ocupa? Ocupa!

Naquela época o JorUFSC já protestava fazendo ocupação. De acordo com o Samuca, uma das primeiras ocupações da reitoria foi por causa do espaço físico insuficiente que oferecido ao departamento de Jornalismo. “Na época o reitor era Rodolfo Pinto da Luz. Aí os professores deram aula ali mesmo, no hall da reitoria, e eram parecidas com essas do currículo de 96, estética, filosofia…".

 

O Centro Acadêmico como um espaço de despertar político

Pensar e agir coletivamente sobre os assuntos que atingem a todas e todos nós é um ato político. Para o Samuca, a participação do CALJ na formação estudantil é como um "despertar da consciência política num curso que discute muito o posicionamento público e a questão que envolve o jornalismo com poder. Pra mim foi um despertar de consciência, eu estava saindo do ensino médio e aí entrei aqui no jornalismo já com a ideia de que isso seria uma porta para eu transformar o mundo a partir do jornalismo. Fazer parte do CA nesse sentido é muito bom para participar da organização estudantil, reivindicar, lutar, e também deixar um legado no termo dessa consciência política que transcende um pouco o percurso pela graduação e que pode ficar como um legado, uma referência para a vida profissional, para uma atitude transformadora perante o mundo e perante o jornalismo" afirma. Felipe Seffrin, aluno durante o período de 2004 a 2007, pensa de forma semelhante: "Acho que a importância é similar a de qualquer outro Centro Acadêmico em outros cursos, que é juntar os alunos em torno de causas que vão além da sala de aula e que só são consideradas ou assimiladas pelos professores, pelo curso e pela comunidade acadêmica quando encontram um espaço para ecoar. Só que, no caso de um curso de jornalismo, o Centro Acadêmico é ainda mais fundamental, porque o (bom) jornalismo tem uma profunda função/razão social. E isso vai muito além da sala de aula, da prática ou da teoria com os pensadores, pois requer o desenvolvimento de um senso crítico, cívico, democrático e uma experiência mais ativa, que às vezes só se encontra matando um pouco de aula e participando das reuniões e atividades, nem que seja para discordar", conta.

 

Sim, os estudantes podem modificar o currículo!

Em 2013 os estudantes de jornalismo boicotaram Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade). A ação fazia parte de uma política nacional incentivada pela Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social (ENECOS) devido ao caráter excludente do exame pois a nota do curso era um dos fatores que interferiam na destinação de verbas. No país, muitos cursos novos de Jornalismo/Comunicação Social eram prejudicados por essa política uma vez que não possuíam estrutura consolidada. Isso afetava o desempenho dos alunos no exame, e, consequentemente, a obtenção de verbas para o desenvolvimento do curso. "Boicotamos o ENADE e isso foi um rompimento grande com a normalidade dentro do curso e uma medida de começarmos a discutir sobre o fato de tinhamos nota máxima no exame mas nosso currículo era cheio de problemas", afirma a aluna recém formada Michele de Mello. Após isso foram feitas duas grandes avaliações do curso com questionários passados em sala. "Geraram pilhas e pilhas de documentos, que foram um primeiro golpe na postura arrogante de muitos professores. E muitas coisas mudaram desde lá em várias disciplinas. Algumas avaliações absurdas deixaram de acontecer em Foto I e os estudantes passaram a usar as câmeras mais cedo – antes isso acontecia só nas últimas aulas do semestre. Essas duas ações culminaram na elaboração de um novo currículo para o curso (2016/1): feito por nós estudantes depois de muito estudo e debate em reuniões abertas. O que foi aplicado representa uns 80% do que era a proposta original e isso deve ser motivo de orgulho para todos/as, porque somos um dos únicos cursos do país que conseguiu esse feito", afirma Michele.

 

O jornalismo é para as mulheres sim

 

Por muito tempo o machismo foi um dos pilares que sustentava as relações e tradições no curso de jornalismo. Frases como "Mulher tem uma inocência útil", "essa pauta é perigosa demais para mulheres" ou "coloca uma gostosa nessa capa" eram constantemente ouvidas por professores/colegas e casos de assédio eram comuns. Poucas de nossas referências no jornalismo eram mulheres e a presença delas nas nossas bibliografias era quase inexistente. Foi então que no final de 2014 cerca de 30 alunas se reuniram para debater sobre essas questões dentro do departamento, resultando na criação do Coletivo Jornalismo sem Machismo, do qual fazem ou já fizeram parte, dezenas de estudantes. Desde sua criação, o coletivo promove uma mudança efetiva nos debates de gênero dentro do JOR UFSC. Gisele Bueno é aluna da oitava fase e conta que quando entrou no curso em 2013.2 as coisas eram bem diferentes. “O Coletivo não existia e nós, calouras, éramos submetidas a várias situações bem constrangedoras. Eu me recordo bem de como era humilhante e assustador pra gente até mesmo o contato feito online com veteranos e outras pessoas do curso. E, logo eu, que sempre fui de me pronunciar sobre coisas que eu achava estarem erradas, fui me calando sempre que algo incômodo acontecia. Muito provavelmente eu reproduzi boa parte do que sofri com outras calouras. Eu digo que reproduzi porque me calei diante de tais situações. Isso também é uma forma de apoio a atitudes escrotas. Mas hoje vejo que eu consentia pela falta de debate sobre o assunto. Com o surgimento do Coletivo Jornalismo Sem Machismo, os debates passaram a ser frequentes e nós, meninas, começamos a ter coragem para enfrentar tais situações. A organização do Coletivo nos fortaleceu enquanto grupo e enquanto pessoas também. Acontece que, com todo esse aprendizado e fortalecimento, nós entendemos também que é preciso fazer esse debate estar sempre presente dentro do curso! Mais importante do que o surgimento do Coletivo é a manutenção dele. Agora já estou bem mais afastada do curso, mas me sinto fortalecida quando vejo a quantidade de calouras envolvidas com essa organização. Não podemos deixar que essa iniciativa enfraqueça. É preciso estarmos sempre atentas e ativas! Não há outra forma de combater o machismo do que a resistência. Foi por meio dos debates propostos pelo Coletivo que eu, como integrante da atlética do curso (AAGB), vi que era necessário estender essas discussões para todos os ambientes possíveis! Isso porque os eventos promovidos pelo Coletivo não alcançavam determinado público que, eu sabia, a atlética alcançava. Desde então, procurei promover rodas de conversa sobre o machismo nesse ambiente do esporte universitário. Além de convidar integrantes de outras atléticas para participarem, eu também tentava, ao máximo, levar essas pautas para dentro da nossa própria diretoria. Me sinto bem orgulhosa disso. Eu sei que os resultados desse trabalho foram pequenos, mas sinto que uma sementinha foi plantada ali. Eu sei que o que essas conversas fizeram nas meninas que participam de atléticas dará muitos frutos num futuro bem próximo. Eu ainda participo de vários eventos da AAGB e é bem gratificante ver que as meninas se sentem encorajadas a enfrentar determinadas situações. Ainda estamos longe do ideal, mas seguimos na luta. Sempre”, afirma.

 

Da ditadura ao fora Temer

 

O CALJ surgiu no final da ditadura, momento em que as entidades estudantis brasileiras estavam se reorganizando depois de mais de uma década na ilegalidade. Os Centros Acadêmicos, como o nosso, que não aceitaram ser apenas fantoches da ditadura, colocaram “Livre” no nome, assinalando sua independência em relação ao governo militar.

Assim como o momento que estamos vivenciando hoje, a década de 80 foi um período conturbado no país, onde nem nossos direitos, nem nossa universidade, nem a estrutura do nosso curso estavam garantidos. Diante da corrupção e escalada da perda de direitos em nível nacional, o Centro Acadêmico no último ano não se isentou e desde os primeiros dias do impeachment se posicionou contra o ilegítimo e corrupto governo de Michel Temer. Agora, com a provável queda do presidente nos próximos dias, novos desafios nos são colocados: são as reformas que precarizam ainda mais o trabalho no Brasil e a possibilidade de que o próximo presidente seja eleito na Câmara dos Deputados, por eleição indireta.

E aí, considerando toda a história do nosso Centro Acadêmico e a importância da participação política dos estudantes, vamos Abrir a Roda pra mais essa discussão?

 

 

Texto: Manoela Bonaldo, Eduarda Pereira e Victor Milezzi 

Última atualização ( Qua, 27 de Setembro de 2017 16:43 )