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Centro Acadêmico Livre de Jornalismo Adelmo Genro Filho

NOTA DO CALJ SOBRE O EPISÓDIO DA REVISTA VEJA, PUBLICADA NESSA SEXTA-FEIRA PDF Imprimir E-mail
Escrito por CALJ - Centro Acadêmico Livre de Jornalismo   
Dom, 26 de Outubro de 2014 15:23
NOTA DO CALJ SOBRE O EPISÓDIO DA REVISTA VEJA, PUBLICADA NESSA SEXTA-FEIRA

Ninguém com uma visão minimamente clara sobre jornalismo cobra imparcialidade dos meios de comunicação. A Teoria do Espelho, sistematizada na primeira metade do Século XX, que defende o Jornalismo como uma reflexão dos fatos assim como o são, já há muito foi superada na academia. A inexistência da imparcialidade, já dizia na década de 80 nosso finado professor Adelmo Genro Filho em seu espetacular “O Segredo da Pirâmide”, não deve ser tida como uma limitação. Faz parte da subjetividade humana, deve assim ser assumida e usada em função do debate público, com honestidade e ética. 

Eis que, nessa sexta-feira, vemos a revista Veja quebrar sua periodicidade -- para se ter uma noção do quão cara essa palavra é à atividade, a tradução de “jornalismo” para o espanhol é “periodismo” -- para, dois dias antes da eleição, colocar seus mais 1 milhão e 100 mil exemplares (fora uma tiragem extra que foi anunciada pela publicação via Facebook) nas bancas e caixas de correios dos assinantes. Na capa, contundente, uma sombria montagem com retratos de Dilma e Lula e os seguintes dizeres, letras garrafais em caixa alta, vermelhas: “ELES SABIAM DE TUDO”, sobre suposto caso de corrupção na Petrobrás que tomou a imprensa nos últimos meses e ajudou a despolitizar o debate eleitoral.

A matéria de dez páginas, muito mais extensa do que sua densidade de informação justificaria, é construída toda em cima de uma suposta declaração do doleiro Alberto Youssef em depoimento à Polícia Federal. Já sabiam que isso era pouco para a matéria, tanto que algumas linhas do texto são dedicadas a uma qualificação artificial da informação. “Para conseguir os benefícios de um acordo de delação premiada, o criminoso atrai para si o ônus da prova. É de seu interesse, portanto, que não falsifique os fatos”. A O Globo, o advogado de Youssef disse não saber de nada que confirmasse o que a revista publicou, e completou “É preciso ter cuidado porque está havendo muita especulação.” 

Além do desapego à precisão e credibilidade da informação -- fundamentais a um jornalismo honesto --, é gravíssimo o que foi feito na edição do título da manchete, que é a cara da revista, que todos leem e que entra com mais força no imaginário do público. A reportagem não passa nem perto de sustentar a fortíssima afirmação feita na capa. Dois trechos deixam isso bem claro:

-> “O doleiro não apresentou -- e nem lhe foram pedidas -- provas do que disse”

-> “Obviamente, não se pode condenar Lula e Dilma com base apenas nessa narrativa. Não é disso que se trata. Youssef simplesmente convenceu os investigadores de que tem condições de obter provas do que afirmou a respeto de a operação não poder ter existido sem o conhecimento de Lula e Dilma”

Os problemas éticos do publicado são tão gritantes, tão óbvios, que o primeiro parágrafo da reportagem é utilizado única e exclusivamente para tentar se explicar e legitimar o mal feito. É impossível negar que essa narrativa inconsistente baseada em informações desqualificadas, aliada à quebra da periodicidade do veículo tem outro propósito que não influenciar o voto dos brasileiros dois dias antes do segundo turno. Como dito no primeiro parágrafo, ninguém deve cobrar imparcialidade, não há problema que um veículo de imprensa faça oposição abertamente a um governo, mas isso deve ser feito dentro da ética jornalística, com informação precisa e crível. A desonestidade demonstrada pela Veja é digna de todo o repúdio.

Essa pendencia foi para o TSE e muito provavelmente chegará também a alguma outra instância da Justiça. O TSE concedeu direito de resposta, publicado no site da revista. A internet é um meio poderoso, porém apenas disponibiliza conteúdo, o público acessa se quiser, o que é muito diferente de imprimir uma revista e entregar para os assinantes ou mesmo a expor em bancas. Mesmo que esse direito fosse concedido nas páginas da edição física, esse só circularia, pelo menos, na semana seguinte à votação. Caso haja alguma condenação em outro tribunal, vai haver proporcionalidade entre o ato da revista e a pena? Uma multa vai reparar uma possível eleição decidida pelo mau jornalismo? O acontecido, além de tudo, escancara o quão urgentes são mecanismos de regulação da mídia, que garantam a pluralidade de vozes e cobrem honestidade no jornalismo. Não deixa de ser um “bem feito” para o PT, que esteve 12 anos no poder, em boa parte deles com o líder político mais amado da história, e não quis bancar essa discussão na agenda pública.